Entrevista
Hélio dos Anjos
Considerado um dos maiores treinadores do Goiás E. C. e o que mais comandou o time na história dos Campeonatos Brasileiros, Hélio dos Anjos revela como foi o início de sua carreira, quem foram seus grandes inspiradores no futebol e as dificuldades daquela época. Faz uma análise da Seleção Brasileira no comando do técnico Dunga, comenta sobre o fato de atletas e ex-atletas que ingressam no mundo da política, fala sobre sua forte ligação com o Goiás e a importância do torcedor para os clubes brasileiros.
Como foi o início de sua carreira como treinador de futebol?
Minha carreira de treinador acabou acontecendo basicamente por dois motivos, primeiro porque eu já estava no meio do futebol e gostava de liderar o grupo como goleiro, que era minha posição, segundo porque tive uma contusão grave no quadril, onde fiquei dois anos em fase de recuperação. Na ocasião, acabei acompanhando trabalhos do Diede Lameiro, que era o treinador do Joinville Esporte Clube na época. Por conta dessa contusão, fiquei prematuramente impossibilitado de seguir a carreira de jogador, foi quando recebi um convite do Lameiro e do Waldomiro Schützler, presidente do clube, para trabalhar nas categorias de base do Joinville, onde permaneci por três anos e meio. Em seguida, assumi o time profissional do JEC por um ano e meio.
Quais foram as maiores dificuldades?
As principais dificuldades foram em relação à inversão de papéis, o fato de ter saído da condição de comandado para ser comandante de uma equipe não é nada fácil no início. Isso requer um certo período de adaptação e aprimoramento, mas como não abri mão de iniciar a carreira de treinador pelas categorias de base, isso acabou me ajudando muito a aperfeiçoar meu trabalho como técnico e comandante de grupo no futuro. É importante ressaltar nessa fase, o aprendizado que tive com vários treinadores como, Diede Lameiro, Cláudio Coutinho, João Francisco e outros treinadores que não tiveram tanta repercussão no cenário nacional, mas que me deixaram muitas informações e orientações importantes. O fator financeiro também foi outra dificuldade, porque eu era jogador de futebol, recebia relativamente bem e tive que me readaptar às condições financeiras depois que me aposentei como atleta.
Quem foram seus ídolos?
Como treinador, tenho um carinho muito grande pelo Diede Lameiro, que foi a pessoa que realmente me abriu os olhos nessa minha profissão, me ajudou muito no início da carreira como técnico. Carlos Alberto Silva foi um treinador que na época, me marcou bastante. Cláudio Coutinho, com quem trabalhei no Flamengo foi um treinador que me chamou muita atenção. Um dos treinadores que eu conversei pouco e quase não trabalhei, mas me deixou entusiasmadíssimo com a profissão, foi Rubens Minelli. Mesmo com o pouco contato que tive com ele, praticamente uma única vez, ele me alertou pra coisas fundamentais na profissão. Já tinha até certo mercado de trabalho, mas depois que tive uma conversa com ele, numa única oportunidade, me senti definitivamente preparado pra seguir minha carreira.
Qual a diferença do futebol no início da sua carreira pros dias de hoje? O que mudou pros treinadores?
Muda muito. A evolução do futebol é diária, como na maioria dos esportes, dessa forma, nós temos que estar nos adaptando sempre e acompanhando a evolução do esporte. Se formos comparar da época em que iniciei até hoje, a evolução é muito maior que os anos passados. Comecei em 1986, já estamos em 2009, representa muito tempo, mas na minha concepção, a evolução do futebol, do mercado futebolístico, dos profissionais, daquilo que se aplica ao esporte é muito maior que o período desses 23 anos. No futebol nós estamos sempre aprendendo, sempre criando situações. Atualmente, você não tem como não trabalhar com uma equipe integrada, não tem como não ter profissionais que te forneça dados em todas as áreas do clube, coisas que quando iniciei ninguém nem imaginava que existia ou não dava muita importância.
Como foi sua experiência no exterior? Quais foram as principais dificuldades?
Comandar a Seleção da Arábia Saudita foi uma experiência maravilhosa em termos de conhecimentos culturais, dentro e fora da profissão. Tive a oportunidade de conhecer jogadores com características físicas, técnicas e psicológicas diferentes dos brasileiros. Tive contato com grandes seleções mundiais, onde acabei enriquecendo e aperfeiçoando também a parte tática e técnica da nossa formação. A principal dificuldade foi me transferir para um país de costumes totalmente diferentes dos nossos. Mundo árabe, religião islâmica e principalmente, a questão do idioma, que é uma das piores dificuldades para o treinador que trabalha muito a parte motivacional e o contato verbal com o grupo. A dificuldade da língua é bem complicada, pois a aplicação da sua metodologia de trabalho fica muito prejudicada, mesmo você tendo um excelente intérprete e todas as condições favoráveis.
O que mais pesa na decisão de comandar uma nova equipe?
É a receptividade do grupo, é você poder criar uma situação de integração com o grupo, não só dos jogadores, mas de todos os profissionais envolvidos com o clube. Ter uma boa receptividade na aplicação de sua filosofia de trabalho, não é você se impor, é criar uma situação onde todos se sintam bem, mas ao mesmo tempo, saibam diretamente qual é seu estilo de trabalhar e que você é um comandante realmente preocupado com todas as suas obrigações. Todo início de trabalho exige um envolvimento muito grande no aperfeiçoamento das relações humanas, à partir do bom convívio entre os profissionais, você tem sua parte técnica e tática facilitada. Por isso, a primeira coisa que procuro construir num clube onde trabalho pela primeira vez ou quando vou iniciar um novo trabalho é criar um espírito de equipe bastante afinado e comprometido, o que consequentemente facilita seu trabalho no futuro.
Como você avalia a Seleção Brasileira com o Técnico Dunga?
Apesar de todas as críticas, o Dunga está conseguindo resultados surpreendentes, principalmente pelo fato de estrear a carreira como treinador na Seleção Brasileira, que é um grande desafio para qualquer técnico experiente. As projeções que vejo pra Seleção do Dunga são as melhores possíveis. Tínhamos na Seleção um estilo de jogo onde o mais importante era a posse de bola, mas com o Dunga isso está mudando. Atualmente, a filosofia dentro da equipe está mais voltada pro futebol competitivo, de maior velocidade, preocupado com a retomada de bola e atento para as bolas paradas, coisas que não eram prioridades anteriormente. O Dunga substitui a geração Zagallo/Parreira, de muita posse de bola e pouca agressividade, onde a questão principal não era a velocidade e a ofensividade, e sim a posse de bola, para impor na equipe uma condição que é a retomada, usufruindo da condição física e da qualidade técnica dos jogadores brasileiros, para potencializar o desempenho da Seleção na busca dos resultados. Além disso, imprimiu o que estamos vendo em termos de espírito de grupo e identidade de jogo na Seleção Brasileira, o que é realmente incrível, principalmente se considerarmos a sua pouca experiência como treinador.
Quais suas projeções para a Copa de 2010? Quem são os grandes favoritos?
Como todo brasileiro eu aposto muito na Seleção Brasileira, mas não podemos subestimar seleções fortíssimas como a Inglaterra, que passou a ser uma seleção muito competitiva em Copas do Mundo, a Espanha que não perdeu nenhum jogo nas classificatórias européias, a Alemanha e a Itália, que têm grande tradição em Copas, assim como outras seleções, como a Sérvia que é novata, mas consegue se impor com um futebol bem parecido com o brasileiro. Além dessas equipes que citei, devemos ter bastante atenção e nunca menosprezar uma seleção africana. Tive a oportunidade de jogar contra a Seleção de Gana quando comandei a Arábia Saudita, essa seleção africana classificou facilmente para a Copa de 2010 e joga um futebol muito forte. A Seleção da Costa do Marfim que também chama atenção pelo aspecto de ter grandes jogadores individualmente, como o de Didier Drogba e alguns outros. Acredito que algumas dessas seleções certamente estarão envolvidas em jogos decisivos na próxima Copa do Mundo na África do Sul.
Tem alguma preferência por esquema tático (4-3-3 / 4-4-2 / 4-5-1)?
Não tenho preferência por esquema tático, faço de acordo com aquilo que considero melhor no momento e principalmente, de acordo com as características dos jogadores que tenho. Acredito que o 3-5-2 ou 3-6-1, que eu até gosto mais, seja forte ofensivamente e também defensivamente. O 4-3-3 é desenvolvido em alguns clubes e em algumas seleções na Europa, mas é um sistema complicado de ser aplicado aqui no Brasil, principalmente por causa das características dos atacantes brasileiros. Quase não temos em nossa base, a formação de atacantes rápidos e fortes fisicamente e taticamente, por isso o atacante brasileiro tem certa dificuldade para essa formação, porque você joga com quatro defensores, três no meio campo e três no ataque, mas os dois atacantes laterais têm que ser, obrigatoriamente, jogadores fortíssimos fisicamente e taticamente, isso nós não temos ainda. Na competição profissional eu gosto muito das duas linhas de quatro, como também gosto da linha de três zagueiros com apenas um atacante, que são formações interessantes, competitivas e bem montadas, onde você está sempre com um grande equilíbrio na equipe.
Qual é a receita para o time ideal? O que cada setor, defesa, meio campo e ataque devem ter?
Depende muito da estrutura tática e daquilo que se conseguiu no conjunto. Muitas vezes você vê um time vencedor, altamente qualificado que valoriza a posse de bola, como o time do Barcelona, por exemplo, que fundamenta a posse de bola, tem muita qualidade de passe no meio campo e grandes atacantes decidindo nas laterais do campo. Enquanto, o Chelsea, que é um dos times mais fortes hoje na Europa, é totalmente diferente, é um time que joga com uma linha de quatro, tendo um lateral um pouco mais ofensivo pelo lado esquerdo, e três jogadores defensivos no meio campo, um central e dois direitos, consequentemente, nessa formação você tem condições de ter um meio campo com mais mobilidade e ofensividade. Acredito que a formação e o esquema tático devem sempre ter um grande equilíbrio, jogadores de velocidade, com jogadores um pouco mais técnicos pelo lado. Se você joga numa estrutura de três zagueiros, você tem que ter os alas e os meias realmente qualificados tecnicamente. Pra você ter um time bem equilibrado, tem que fazer prevalecer a característica individual dos jogadores respeitando todos os setores da equipe, um time forte ofensivamente, mas que, por causa dessa ofensividade, não deixa espaço pra desequilibrar a equipe defensivamente.
Até que ponto a troca de treinadores em um clube em crise, influencia no desempenho do time dentro de campo?
A mudança sempre traz consequências, que tanto podem ser positivas, quanto negativas. Na cultura do futebol brasileiro e também agora na mundial, as pessoas acreditam que a mudança de comandante apresenta apenas benefícios pro clube, obviamente que isso é possível, mas eu parto do princípio que no esporte coletivo, como é o futebol, quanto mais entrosamento, melhor. Se você tem um comando que já conhece mais o grupo, que o grupo já o conhece mais e as coisas já estão completamente equilibradas, eu vejo que a manutenção do técnico é mais importante que a mudança. Agora, tudo vai de acordo com a cultura do clube, com os objetivos conquistados. Infelizmente, não se vê no Brasil o que se vê na Europa, um técnico com 18 anos, 20 anos de clube, um técnico renovar um contrato, como foi o caso do Rafa Benitz no Liverpool, que já tinha seis anos de clube e renovou contrato até 2012. Como é o caso também do técnico francês Arsene Wenger do Arsenal, que está no time inglês desde 1996 e renovou contrato até 2012. No Brasil é quase impossível acontecer isso.
Como avalia os casos em que treinadores se “insinuam” para times que estão passando por crise para serem contratados por estes clubes?
Essa é uma coisa que frequentemente acontece no Brasil. Não tenho conhecimento se isso acontece em outros países da mesma forma como ocorre aqui, onde essa prática passou a fazer parte do futebol brasileiro de uma forma muito negativa. Infelizmente, muitas vezes por causa da instabilidade emocional de alguns dirigentes, isso acaba acontecendo constantemente, afetando não apenas o trabalho dos treinadores, mas principalmente o ambiente e estrutura dos clubes. É uma coisa que demonstra falta de cultura, falta de ética e falta de respeito pelos profissionais envolvidos no caso.
Vários atletas e esportistas estão ingressando no mundo da política, qual sua avaliação sobre isso?
No meu ponto de vista, a política é aberta a todos, todo mundo tem o direito de ingressar na política. Nem todos têm condições de fazer bem, nem todos têm intenção de fazer bem. O atleta tem toda liberdade, muitas vezes aproveitando da performance e popularidade que teve como jogador, de dar seqüência na sua vida como político. Vejo vários atletas que tem condições de se tornar bons políticos, como também tem atletas que não têm a mínima condição. Em geral, é uma questão de liberdade e democracia na política brasileira.
Também se arriscaria nessa área?
Não. Não tenho qualquer intenção em relação a isso, a política não é a minha área, até mesmo porque, eu acredito que quando deixar o futebol, não vou ter nem mais saúde para me arriscar no mundo política.
A que você atribui a forte relação do Goiás E.C. com o treinador Hélio dos Anjos?
Começou em 1995, quando o Goiás conheceu minha personalidade, minha maneira de ser como treinador. Disputamos um Campeonato Brasileiro completo, depois que o Goiás voltou pra Primeira Divisão. Mas, acredito que identidade maior passou a surgir em 1999. Respeito todos os trabalhos que foram feitos no clube até hoje, mas considero aquele ano um dos trabalhos mais importantes da história do Goiás. Principalmente, em função de que a grandeza do Goiás E. C. estava em jogo. Uma queda para a Segunda Divisão, o clube num processo de transição, onde estava sendo definindo se o Goiás se tornaria um clube grande, como é hoje, ou se manteria no patamar mediano da maioria dos clubes brasileiros. Tudo isso com um grupo de meninos, altamente qualificados e responsáveis pelo ótimo trabalho daquele ano. Foi um ano sensacional. Naquele momento tivemos a certeza que construímos uma forte relação entre o Goiás E. C. e o treinador Hélio dos Anjos. Essa ligação foi o principal motivo que me fez retornar novamente este ano e quem sabe, permanecer por um longo tempo aqui.
Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?
O momento mais marcante da minha carreira de treinador de futebol foi o meu primeiro título de Juniores no Joinville, onde eu era totalmente desconhecido, um ex-atleta com intenção de me tornar treinador de futebol. E a partir do momento que você comanda uma equipe e nesse mesmo ano, você conquista todos os títulos possíveis com esse grupo, é um momento de você se projetar e se firmar enquanto técnico de futebol. Não foi nada fácil, mesmo depois dessa conquista as dificuldades foram várias, mas definitivamente, essa foi uma fase que marcou o início da minha carreira.
Qual a importância do torcedor no espírito da equipe?
Muito grande. O torcedor age somente baseado na emoção, ninguém tem o direito de questionar a emoção. O torcedor tem que saber que assim como os aplausos ajudam o time, as vaias, as cobranças também podem ajudar. Agora, é muito importante, para ambas as partes, saber respeitar a todos. É fundamental respeitar o profissional que está buscando o melhor pro clube, como também o profissional respeitar o direito do torcedor que está querendo o melhor para ele e para o clube, que são as vitórias e os títulos. Vejo uma importância muito grande do papel do torcedor em relação aos clubes, admiro muito os times que tem uma forte identidade e uma boa relação com os seus torcedores.